Oceanos

Tubarões-pontas-negras detectam sons a até 74 metros

Experimentos com animais selvagens na Flórida registraram respostas a três faixas de baixa frequência. Mudanças bruscas de direção sugerem que os tubarões identificaram de onde o som vinha.

Ilustração de tubarão-ponta-negra reagindo a ondas sonoras subaquáticas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial (IA). Não é uma fotografia real do que a matéria descreve.

Experimentos realizados em águas costeiras rasas do condado de Palm Beach, no sudeste da Flórida, indicam que tubarões-pontas-negras selvagens conseguem detectar sons de baixa frequência a distâncias de até 74 metros, equivalentes a 243 pés. Além de reagirem aos estímulos, os animais frequentemente fizeram mudanças rápidas de direção para longe da fonte sonora.

O comportamento sugere que os tubarões não perceberam apenas a presença do som, mas também conseguiram determinar a direção de onde ele partia. Essa interpretação se refere à orientação em relação à fonte e não significa que os animais tenham localizado com exatidão um ponto específico.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Florida Atlantic University e publicado em Integrative Organismal Biology. Caroline Sullivan é a autora principal, Stephen Kajiura é o autor sênior e Edmund Gerstein é coautor do trabalho. A data de realização dos experimentos não foi informada no material disponível; a notícia sobre os resultados foi publicada pelo ScienceDaily em 29 de setembro de 2026.

Testes com tubarões nadando livremente

A pesquisa avaliou tubarões-pontas-negras da espécie Carcharhinus limbatus em seu ambiente natural. Os animais nadavam livremente enquanto a equipe apresentava estímulos sonoros controlados e acompanhava seus movimentos a partir do alto.

Esses tubarões foram escolhidos porque se reúnem de maneira previsível no sudeste da Flórida. Grandes números se concentram ao longo da costa do condado de Palm Beach durante o inverno, enquanto grupos menores podem ser encontrados na região ao longo do ano. A água clara e rasa também permitiu observar indivíduos sem a necessidade de confiná-los em tanques.

Segundo Stephen Kajiura, a abundância e a acessibilidade dos animais possibilitaram que a equipe os acompanhasse de cima e apresentasse sons subaquáticos controlados com menor interferência sobre seu comportamento natural.

Como o experimento foi realizado

Depois de ancorar uma embarcação, os pesquisadores colocaram um alto-falante subaquático na água e permitiram que ele se afastasse com a corrente por até 19 metros. O objetivo dessa configuração era reduzir a possibilidade de que o próprio barco influenciasse a reação dos tubarões.

A equipe reproduziu três grupos de sons de baixa frequência:

  • de 100 a 200 hertz;
  • de 200 a 400 hertz;
  • de 400 a 800 hertz.

Também foi usado como controle um som de 10 quilohertz, frequência situada além da faixa auditiva conhecida dos tubarões. Os estímulos não foram apresentados para atrair os animais, mas com intensidade suficiente para provocar uma resposta de sobressalto.

Hidrofones calibrados mediram os níveis sonoros em diferentes pontos. Com isso, os pesquisadores puderam estimar o que cada tubarão recebia acusticamente no momento da reação. Ao mesmo tempo, um drone voando entre 40 e 50 metros acima da água registrou os deslocamentos durante os sons experimentais e o controle.

As imagens foram analisadas quadro a quadro para calcular a distância de cada animal em relação ao alto-falante e avaliar a intensidade das mudanças em sua direção de nado.

Respostas chegaram a 74 metros

Os tubarões responderam às três faixas de baixa frequência testadas, mas não reagiram ao controle de 10 quilohertz. A maior distância de detecção registrada foi de 74 metros, ou 243 pés, valor próximo de 250 pés.

Os animais foram mais sensíveis aos sons de frequências mais baixas. Esses estímulos foram detectados a distâncias maiores e em níveis sonoros menores. O resultado ajuda a delimitar o alcance da percepção acústica da espécie nas condições avaliadas pelo estudo.

Mais de 70% das respostas registradas ocorreram no chamado campo acústico distante, região na qual o som se comporta de maneira diferente daquela observada perto da fonte. Segundo os autores, os resultados fornecem evidência quantificada de que tubarões nadando livremente podem detectar e orientar-se para longe de sons nesse campo distante.

Mudanças de direção indicam origem do som

A distância de detecção foi apenas uma parte do resultado. As filmagens também mostraram que os tubarões frequentemente fizeram curvas rápidas para longe do alto-falante.

Para os pesquisadores, essas mudanças indicam que os animais conseguiam reconhecer a direção de origem do estímulo. A conclusão é sustentada pela orientação das respostas, mas deve ser entendida como uma indicação comportamental: o experimento não demonstrou uma localização exata da fonte além da capacidade de determinar sua direção.

Kajiura afirmou que a resposta no campo acústico distante sugere a detecção do movimento de partículas associado ao som mesmo a uma distância considerável. A pesquisa, portanto, não avaliou somente se os tubarões ouviam o estímulo, mas também como se orientavam diante dele.

Como os tubarões podem perceber os estímulos

Os tubarões não possuem a bexiga natatória cheia de gás encontrada em muitos peixes ósseos. Nesses peixes, a estrutura pode contribuir para a detecção da pressão sonora.

Em vez disso, acredita-se que os tubarões dependam principalmente do ouvido interno. Esse sistema inclui uma estrutura sensorial especializada conhecida como macula neglecta, que pode ajudá-los a perceber movimentos e vibrações produzidos pela propagação do som na água.

O estudo não encerra a questão sobre o funcionamento desse sistema. Os pesquisadores ainda querem compreender com maior precisão como os sinais acústicos distantes são detectados e processados pelos tubarões.

Por que estudar a audição no oceano

A realização do experimento em ambiente costeiro buscou evitar algumas limitações de testes em laboratório. Dentro de um tanque, o som pode refletir repetidamente nas paredes e formar padrões acústicos complexos, dificultando a interpretação das respostas do animal.

Caroline Sullivan comparou esse problema a uma casa de espelhos: os sinais rebatidos podem se tornar confusos. Ao trabalhar no oceano com tubarões selvagens, a equipe pôde acompanhar respostas em condições naturais de nado, mantendo controle sobre os sons apresentados.

A combinação de alto-falante subaquático, hidrofones calibrados e filmagens aéreas permitiu relacionar o estímulo recebido à posição e à trajetória de cada animal. Esse desenho experimental também tornou possível medir respostas a distâncias que seriam difíceis de reproduzir de maneira clara dentro de tanques.

O que os resultados acrescentam

O oceano contém sons produzidos por presas, predadores e outros animais. Esses sinais podem fornecer informações sobre acontecimentos que estão além do campo de visão de um tubarão. Os novos resultados mostram que, nas condições testadas, tubarões-pontas-negras perceberam estímulos de baixa frequência a dezenas de metros e responderam de forma direcional.

Isso amplia a compreensão sobre a percepção acústica da espécie em ambientes costeiros. Ao mesmo tempo, o trabalho deixa questões abertas sobre os mecanismos sensoriais envolvidos e sobre a maneira como os tubarões interpretam sinais distantes no ambiente natural.

O artigo tem o DOI 10.1093/iob/obag033. O trabalho recebeu apoio da Colgan Foundation e da National Save the Sea Turtle Foundation.

Fontes e referências

ScienceDaily - Plants & Animals ↗

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