Em Nyangombe, no distrito de Chiredzi, sudeste do Zimbábue, uma estratégia visual simples vem sendo usada na tentativa de proteger animais de criação contra predadores: pintar olhos artificiais na parte traseira do corpo. A ideia é fazer com que bois, cabras e ovelhas pareçam estar olhando para quem se aproxima por trás.
O criador Edson Mabika adotou a prática em janeiro de 2025, depois de perder quatro ovelhas e um bezerro para animais silvestres em menos de dez dias. Segundo ele, as perdas ocorreram apesar da existência de um curral seguro, de um pastor experiente e de três cães acompanhando o rebanho.
A experiência está inserida em um cenário mais amplo de convivência difícil entre moradores e fauna silvestre. Nos primeiros seis meses de 2026, o conselho local de Chiredzi registrou 317 casos de conflito entre humanos e animais selvagens, incluindo ataques de predadores a animais de criação.
Como os olhos artificiais passaram a ser usados
Após as perdas, Mabika procurou um amigo que havia trabalhado como guarda em uma reserva de fauna. Ele buscava uma forma de assustar os predadores sem se colocar em risco. A recomendação recebida foi desenhar olhos na parte traseira dos animais.
Em janeiro de 2025, o criador pintou olhos pretos e brancos em aproximadamente um terço de seu rebanho. O objetivo era criar a impressão de que os animais estavam atentos a uma aproximação feita por trás, direção usada por predadores em ataques de emboscada.
Mabika contou à Mongabay que, antes de adotar os desenhos, perdia quatro ou cinco animais por ano. No período de cerca de um ano e meio após o início da prática, ele relatou a perda de uma cabra e de um cordeiro. Nos dois casos, segundo o criador, a pintura dos olhos já havia desbotado.
Esses números descrevem a experiência de um único proprietário e não demonstram, isoladamente, que a pintura tenha causado a redução. Não houve, em Chiredzi, uma pesquisa científica identificada pela reportagem que comparasse grupos de animais pintados e não pintados sob condições controladas.
O conflito com a fauna em Chiredzi
Nyangombe fica em uma região próxima de grandes áreas de conservação, entre elas a Save Valley Conservancy e a Nyangombe Community Conservancy. Moradores ouvidos pela reportagem afirmaram que animais silvestres consomem plantações e atacam rebanhos e, em alguns casos, pessoas.
Mabika citou búfalos entre os animais associados a danos nas lavouras e à disseminação de doenças. Ele também mencionou cães-selvagens, chacais, leopardos e leões como predadores de animais de criação.
O registro de 317 ocorrências feito pelo conselho local abrange diferentes formas de conflito entre humanos e fauna silvestre, e não apenas predação de rebanhos. Ainda assim, a inclusão de ataques a animais domésticos entre os casos mostra por que moradores procuram medidas capazes de reduzir perdas sem confrontar diretamente os predadores.
Uma experiência local, não um experimento científico
A adoção dos olhos artificiais por Mabika começou como uma iniciativa individual baseada no conselho de um ex-guarda de reserva. Outros proprietários de animais em Nyangombe também passaram a experimentar a técnica, segundo a reportagem.
Langton Bandama, guarda experiente contratado para rastrear animais que deixam áreas de conservação, afirmou acreditar que os desenhos podem impedir ou retardar ataques. Para ele, o tempo necessário para um predador decidir avançar poderia abrir espaço para que o efeito visual interferisse na aproximação. Essa é uma avaliação relatada por Bandama, e não uma conclusão obtida em um estudo realizado em Chiredzi.
Também não está estabelecido como a prática chegou à região. Tinoda Mafunga, que trabalhou como empregado rural em Botswana antes de retornar a Nyangombe, disse já conhecer o uso de olhos pintados durante sua passagem pelo país vizinho. Ele considera possível que a técnica tenha se espalhado a partir de comunidades próximas à fronteira, mas essa origem permanece uma hipótese.
O que um estudo em Botswana encontrou
A experiência de Chiredzi tem um precedente científico citado pela reportagem, mas realizado em outro país e em outro contexto. Em 2020, um estudo liderado pelo ecólogo Cameron Radford avaliou olhos artificiais em cerca de 2 mil bovinos de uma região de Botswana que havia registrado níveis elevados de predação.
Entre 683 bovinos que receberam olhos pintados, nenhum foi morto por leões ou leopardos durante o estudo. Entre 835 animais sem marcação, 15 foram registrados como mortos por uma dessas duas espécies. Outros quatro bovinos mortos tinham recebido apenas marcas em forma de cruz na parte traseira.
Os resultados não foram iguais para todos os predadores. Hienas-malhadas mataram um bovino de cada uma das três categorias: animais com olhos artificiais, animais com cruzes e animais sem marcação. Esse resultado sugere que o efeito dos desenhos pode variar conforme a forma de caça e a espécie envolvida.
O artigo de 2020 foi assinado por Cameron Radford, J. W. McNutt, T. Rogers, B. Maslen, N. Jordan e outros colaboradores. Embora ofereça evidência experimental relevante sobre bovinos em Botswana, ele não foi conduzido em Chiredzi e não avaliou diretamente a iniciativa de Mabika.
Por que os resultados precisam ser interpretados com cautela
O relato do criador e o estudo de Botswana apontam na mesma direção geral, mas possuem pesos diferentes. No caso de Mabika, a comparação depende da memória e dos registros pessoais sobre perdas ocorridas antes e depois da pintura. Outros fatores que poderiam ter influenciado o número de ataques não foram controlados em um experimento local.
Também não é possível concluir, com base nessa experiência individual, que olhos artificiais funcionem para todos os animais de criação, predadores ou paisagens. O próprio estudo de 2020 encontrou diferenças entre ataques de leões e leopardos e aqueles atribuídos a hienas-malhadas.
Outro detalhe relatado por Mabika é a condição da pintura: a cabra e o cordeiro perdidos após a adoção da estratégia estavam com os olhos artificiais desbotados. A observação pode orientar perguntas futuras, mas não basta para demonstrar que o desgaste tenha sido a causa dos ataques.
Uma ferramenta possível para a convivência
A pintura chama atenção por buscar reduzir ataques sem exigir que moradores persigam ou enfrentem os predadores. Em regiões onde áreas de criação e habitats de animais silvestres estão próximas, medidas desse tipo podem ser consideradas como possíveis ferramentas de convivência.
As informações disponíveis, porém, não permitem apresentar a experiência de Nyangombe como uma solução comprovada para o distrito. O que existe é um relato local de redução das perdas, acompanhado por resultados de um estudo anterior feito com bovinos em Botswana.
Para Chiredzi, ainda faltam avaliações sistemáticas que comparem animais pintados e não pintados, identifiquem os predadores envolvidos e acompanhem as ocorrências ao longo do tempo. Até que esses dados existam, os olhos artificiais devem ser tratados como uma estratégia em experimentação, e não como garantia contra ataques.

